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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Uma contribuição á psicogênese dos estados maníaco-depressivos (pontuações sobre o texto)

Melanie Klein -1935
             Este artigo apresenta idéias novas importantes em que propõem duas teorias interligadas: uma teoria do desenvolvimento inicial e uma teoria da origem da doença maníaco-depressiva.
A teoria refere que já no primeiro ano de vida do bebe, ocorre uma mudança significativa nas relações de objeto, tornando-se de parcial para total. Essa mudança coloca o ego em uma nova posição, onde consegue se identificar com seu objeto. Ele passa a ter medo de perder o objeto amado bom, e alem das ansiedades persecutórias, começa a sentir culpa pela agressividade contra o objeto. O ego passa a mobilizar as defesas maníacas para aniquilar os perseguidores e lidar com a nova experiência de culpa e de desespero (posição depressiva)
O resultado esperado da P. Depressiva é a firme internalização do objeto bom. Caso isso não ocorra, surge então um cenário psíquico para doenças depressivas.
Apesar do artigo se concentrar na P. Depressiva infantil, ele esclarece através do contraste a natureza geral da Posição Paranóica anterior como uma situação caracterizada pela ansiedade paranóide, relações com objetos parciais e uma cisão dos objetos e das emoções. 
Já nos primeiros meses de existência, o bebê tem impulsos sádicos dirigidos não só contra o seio da mãe, mas contra o interior de seu corpo. O desenvolvimento do bebe é governado por mecanismos de introjeção e projeção . Desde o inicio, o ego introjeta objetos maus e bons (sendo o seio da mãe servindo para ambos). (objetos considerados maus não só porque frustram o desejo do bebe mas também por causa da agressão projetada sobre eles).
As fantasias que o bebe faz dos objetos maus (devoradores, destruidores etc.) são imagens distorcidas de forma fantásticas dos objetos reais em que estão baseadas, que se instalam não só no mundo externo, como também dentro do ego, através do processo de incorporação.
Um dos métodos mais remotos de defesa contra o medo de perseguidores (ext. ou int.) é através da negação da realidade psíquica, podendo causar uma restrição nos Mec. de introjeção e projeção, alem da negação da realidade externa. Esse processo forma a base das psicoses mais graves.
O ego também pode tentar se defender dos perseguidores internalizados através dos processos de expulsão e de projeção, formando a paranóia. É possível detectar parte dessa ansiedade no medo infantil de bruxas e feras malvadas etc., mas nesse caso ela já foi submetida a projeção e a modificação.
As defesas típicas da paranóia buscam principalmente eliminar os “perseguidores”. A medida que o ego se torna mais organizado, as imagos internalizadas vão se aproximando da realidade e ele se identifica de forma mais completa com objetos bons. O medo da perseguição, que de inicio era percebido como uma ameaça para o próprio ego, agora também se relaciona com o objeto bom. A partir desse momento, a preservação do obj. bom é encarado como um equivalente a sobrevivência do ego.
Com esse desenvolvimento ocorre uma mudança importante: A passagem de uma relação de objeto parcial para a relação com um obj. total. Ao dar esse passo, o ego atinge nova posição, que serve de base para a situação chamada de perda do obj. amado. Só quando o obj. é amado como um TODO é que sua perda pode ser sentida como um todo.
Quando um cç (ou um adulto) se identifica de forma mais completa com um obj bom, os anseios libidinais aumentam, ela desenvolve amor e desejo vorazes de devorar esse objeto, e o mec. de introjeção é reforçado.
Outro estímulo para o aumento da introjeção é a fantasia de que o obj. amoroso pode ser preservado com segurança no interior do próprio individuo. Nesse caso, os perigos do interior são projetados para o mundo externo.
Klein também aponta que há uma profunda ansiedade a respeito dos perigos que guardam o obj. dentro do ego.O interior do individuo pode ser percebido como um lugar perigoso e venenoso.Trata-se de uma situação em que o ego se identifica totalmente com os obj bons internalizados e, ao mesmo tempo, percebe sua própria incapacidade de protegê-los e preservá-los do id e dos obj persecutórios internalizados.
O medo de que o obj bom seja expelido juntamente com o obj mau faz com que os mecanismos de expulsão e projeção vão perdendo o seu valor.Nesse estagio, o ego recorre mais a introjeção do obj bom como mec.  de defesa. A este se associa outro mec. importante de reparação ao obj.
O ego, entretanto, ainda não consegue acreditar completamente na benevolência do objeto, nem sua própria capacidade de restituição. Por outro lado, através da identificação com o obj bom e com todos os avanços mentais que sofreu, o ego se vê obrigado a ter uma noção mais completa da realidade psíquica, o que gera grandes conflitos.
Tanto os obj maus quanto os bons são ameaçados pelo id, pois cada acesso de ódio ou ansiedade pode resultar numa “perda do obj amado”.Toda a experiência que aponta para a perda do obj amado real estimula o medo de também perder aquele que foi internalizado.
Os processos que mais tarde surgem claramente como perda do obj amado são determinados pelo fracasso sentido pelo sujeito, durante o desmame, em manter seu obj bom internalizado, em apossar-se dele. Um dos motivos para esse fracasso é sua capacidade de vencer o medo paranóide dos perseguidores internalizados.
Assim Klein afirma que a influencia direta dos processos iniciais de introjeção sobre o desenvolvimento normal e patológico é muito mais importante do que se pensava. Os primeiros obj incorporados já formam a base do superego e participam de sua estrutura.
No melancólico existe uma extrema severidade do superego relacionada às perseguições e exigências dos obj maus internalizados, aos ataques destes obj, a necessidade de cumprir as exigências dos obj bons, alem de protegê-los e apaziguá-los dentro do ego e a constante incerteza a respeito da verdadeira bondade do obj bom- todos esses fatores se combinam para produzir no ego uma sensação de estar preso entre reivindicações contraditórias e impossíveis de se realizar, condição sentida como um peso na consciência.
O Ego se submete a uma escravidão ao cumprir com as exigências e advertências cruéis do obj amado que se instalou dentro de si. O ego procura manter os obj bons afastados dos maus, os reais afastados dos fantásticos, o resultado é uma idéia de obj extremamente maus e outros extremamente perfeitos, ou seja, os obj amados são em vários aspectos profundamente morais e exigentes.
Essas exigências rigorosas servem ao propósito de apoiar o ego na luta contra o seu ódio incontrolável e os obj maus que atacam com os quais o ego em parte se identifica. Quanto mais forte a ansiedade de perder os obj amados, mais o ego tentará salvá-los. Da mesma maneira, quanto mais árdua for à tarefa de restauração, mais rígidas serão as exigências associadas ao superego.
Sentimentos de ansiedade paranóica e ansiedade depressiva estão muito ligados entre si, porem a ansiedade persecutória esta relacionada principalmente a preservação do ego, e a ansiedade depressiva esta relacionada a esforços para salvar obj bons internalizados e externos.
Somente quando o ego introjeta o obj como um todo, é que ele percebe o desastre criado pelo seu sadismo e principalmente pelo seu canibalismo. Só então ele sofre por causa disso. É preciso uma identificação mais completa com o obj amado e um reconhecimento mais completo de seu valor para que o ego perceba o estado de desintegração a que reduziu. Percebe que seus objetos amorosos estão num estado de dissolução, em pedaços. Surgem sentimentos como desespero, remorso e ansiedade. Sentimentos que também estão relacionados com a depressão.
No estado de depressão, a tentativa de restauração do obj amado se associa ao desespero, pois o ego não confia na sua capacidade de realizar essa restauração.
As censuras que o depressivo dirige a si mesmo, dizem respeito a acusações contra o obj introjetado porem,o ódio do ego pelo id, pode explicar ainda melhor os sentimentos de desmerecimento e desespero.
O conhecimento incs por parte do ego de que o ódio também esta presente juntamente com o amor, e de que a qualquer momento ele pode se tornar o elemento mais poderoso (ansiedade do ego de se deixar levar pelo id e destruir o obj amoroso)que traz  o sofrimento, o sentimento de culpa e desespero .
O paranóico também introjeta um obj inteiro e real, mas não consegue se identificar com ele, não conseguindo manter a identificação, pois a ansiedade persecutória é forte demais. Alem disso, ele não consegue suportar as ansiedades adicionais em torno do objeto amado, nem os sentimentos de culpa e remorso que acompanham a posição depressiva. Com isso, o sofrimento ligado a posição depressiva o joga de volta a posição paranóica. De qualquer maneira, a P. Depressiva é atingida, e, portanto, a possibilidade de depressão sempre estará presente.
Comparando os sentimentos de desintegração, se verifica que o depressivo está cheio de pesar e ansiedade pelo o objeto, que tenta juntar novamente num todo, enquanto para o paranóico o objeto desintegrado é principalmente uma multidão de perseguidores.

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